sábado, 28 de novembro de 2009

O tempo do Advento

Mais uma vez começa o tempo do Advento, tempo de silenciosa e alegre espera do Senhor que vem para cumprir suas promessas.
O início do Advento coincide com o início do ano litúrgico. É preciso que compreendamos bem o que vem a ser o ano litúrgico: ele é o compêndio espiritual dos mistérios da salvação no decorrer do tempo. Ao passar os dias do ano, dentro do espaço temporal da liturgia, nós, ao mesmo tempo em que permanecemos no tempo, entramos na eternidade de Deus através do Espírito Santo que habita em nós. Dessa forma, viver cada ano com intensidade os mistérios celebrados diariamente no ano litúrgico deve ser uma preocupação primordial para o fiel de Cristo. Nesse sentido, o tempo do Advento com o qual se inicia o ano litúrgico constitui uma oportunidade ímpar para predispor o espírito para receber o Senhor que vem nos visitar no Natal.
O tempo do Advento é marcado pela cor roxa, sinal da vigilância que deve ser o estado de espírito corrente do cristão e que a Igreja convida a aprofundar nesse período. Apenas no terceiro Domingo do Advento o roxo é substituído pelo róseo ou roxo mitigado, em sinal da proximidade das festas natalinas. Também nos lembra a necessidade de buscar a reconciliação com Deus por meio do sacramento da reconciliação para podermos participar dignamente dos santos mistérios de Deus.
Um outro aspecto importante deste tempo litúrgico é o convite que a Igreja faz para que seus filhos ouçam mais e melhor a Palavra de Deus. Nesse sentido é que ela nos faz ouvir durante este período, grande parte da profecia de Isaías, além de, no Evangelho, destacar cada dia que a vinda do Senhor no fim dos tempos está iminente. Este é o tom deste tempo: a expectativa e certeza da vinda do Senhor no fim dos tempos (durante as primeiras semanas do Advento) e no Natal (a partir do dia 17 de dezembro), além da vinda cotidiana do Senhor em nossos corações pelo Seu Santo Espírito e na Sagrada Liturgia, nos irmãos etc.
A riqueza do tempo que agora se inicia é tamanha que não caberia nem ao menos assinalar os principais pontos neste minúsculo texto. Durante todo o tempo do Advento chamarei a atenção de você, caro leitor, para outros aspectos importantes. Também tentarei colocar uma série diária de reflexões acerca das leituras do profeta Isaías que forem sendo lidas no decorrer deste período e que meditarei, convidando você a fazer o mesmo.
De todo coração, desejo a você um santo tempo de Advento, de forma que possamos receber, de coração dilatado, o nosso doce Jesus neste Natal de 2009 e também durante estes dias que o antecedem.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um país realmente católico

A respeito da decisão do Tribunal de Direitos Humanos da União Europeia de forçar a Itália a retirar os crucifixos das paredes das salas de aula, houve um levante indignado em todo o país. Vejam, católicos brasileiros, o que acontece num país realmente católico e depois se pergunte: o Brasil é um? O texto está no blog Frates in Unum.


“Oh, bella Italia! A Itália mostra aos imbecis europeus com quantos paus se faz uma canoa” – esclareceu o BLOG ‘Fakten Fiktionen’ na quinta-feira:
“Esta é a resposta ao Juiz turco de Estrasburgo!”.
O Blog narra os fatos: “O prefeito de San Remo, Maurizio Zoccarato, está colocando uma cruz de dois metros no prédio da prefeitura!”
A cidade de San Remo encontra-se no extremo noroeste da Itália.
Ao mesmo tempo Zoccarato exigiu que todos os diretores de escolas afixem cruzes nas salas de aula.
Segundo o blog ‘Fakten Fiktionen’, em toda a Itália inicia-se uma competição para mostrar isso aos juízes de Estrasburgo”.
Na cidade de Busto Arsizio, perto de Milão, a administração municipal hasteou as bandeiras da União Européia em frente aos prédios oficiais a meio mastro.
Um enorme crucifixo está resplandecendo há pouco tempo diante da fachada do Teatro Bellini de Catania, na Cicília.
Inúmeras comunidades italianas encomendaram novas cruzes para as suas escolas.
A cidade Sassuolo na província de Modena no norte da Itália encomendou cinqüenta novos crucifixos. Eles deverão ser pendurados em todas as salas de aula em que ainda não houver algum.
O Ministro da Defesa Ignazio La Russa abordou o tema da defesa nacional espiritual em uma discussão de TV: “Todas as cruzes devem permanecer penduradas, e os opositores da cruz que morram, juntamente com essas instituições aparentemente internacionais!”
A comunidade Montegrotto Terme com 10.000 habitantes – onze quilômetros a sudoeste de Pádua – anuncia em placas de néon: “Noi non lo togliamo” – Não vamos ceder.
O prefeito da cidade de Treviso no noroeste da Itália resumiu a situação muito bem: “Encontramo-nos no reino da demência, essa é uma decisão, que clama por vingança. O tribunal deve processar a si mesmo pelo crime que cometeu!”
O prefeito de Assis sugeriu que além dos crucifixos fossem colocados também presépios nas salas de aula.
O prefeito da cidade de Trieste esclareceu que tudo permaneceria do jeito que está.
A Câmara de Comércio romana pediu que as lojas pendurassem crucifixos.
Na comunidade Abano Terme – onde mora a ateísta militante finlandesa que reclamou do crucifixo – haverá protestos amanhã em frente das escolas a favor da Cruz de Cristo.
O prefeito de Galzignano Terme na província de Pádua, Riccardo Roman, ordenou colocação imediata de cruzes em todos os edifícios públicos – não somente escolas, mas também na Prefeitura e museus. Dentro de duas semanas a polícia irá conferir se a ordem foi obedecida, caso contrário haverá uma multa de 500 Euros. O autor de ‘Fakten Fiktionen’ está maravilhado: “Bravo! Vou descansar alguns dias lá no ano que vem! Deve valer à pena!”
O Prefeito Maurizio Bizzarri da comunidade de Scarlino na Toscana do sul impôs uma multa de 500 Euros para aqueles que retirarem uma cruz dos prédios públicos.
Na cidade Trapani no extremo oeste da Sicília o Presidente e o assessor do governo da província encomendaram 72 cruzes com recursos próprios.
Na cidade de Neapel apareceu uma pixação que dizia: “Se arrancar a cruz, eu arranco a tua mão fora!”
‘Fakten Fiktionen’ se dá por vencido: “Lamento, preciso parar, mas parece que não existe nenhuma cidade sem resistência.”

sábado, 21 de novembro de 2009

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Chegamos à ultima semana do ano litúrgico. O ciclo litúrgico é imagem da história da salvação: ele começa com a expectativa da chegada do Salvador da humanidade, penetra no mistério da morte e ressurreição do Senhor, segue e termina no acontecimento escatológico quando o Cristo virá para reinar sobre o mundo, exercer a justiça sobre a terra e dar a recompensa aos servos justos: o reino preparado para eles desde toda a eternidade.
Pois bem: chegamos ao último domingo do ano litúrgico, comemorando este fato escatológico que, celebrado na Sagrada Liturgia, acontece agora. Sim, meus irmãos, na Liturgia entramos na eternidade: o Sacrifício pascal de Cristo é tornado presente, bem como toda a economia da salvação e, inclusive, os tempos futuros. Na liturgia penetramos o “tempo” de Deus, que não é tempo, mas eternidade; utilizando as categorias de Santo Agostinho, diríamos que na liturgia deixamos o nunc transiens, o agora que passa, ou seja, o tempo, para penetrar no nunc stans, o agora que permanece, isto é, a eternidade.
Assim sendo, podemos agora entender o sentido preciso da Solenidade de hoje: no fim dos tempos Cristo virá como Rei para reinar sobre o reino que seu pai lhe deu (cf. Sl 2), sentando-se no seu trono glorioso para separar o joio do trigo (cf. Mt 13,30.41-42), os peixes bons dos maus (cf. Mt 13,47-50), as ovelhas dos cabritos (cf. Mt 25,32). Mas, na verdade, o Cristo já reina, embora de modo não-pleno ainda: reina por Sua presença (cf. Lc 17,21) que enche toda a terra e, no coração humano que o acolhe, reina como Senhor. Cristo já reina no coração dos que creem e já reina na Igreja; enquanto Deus, reina sobre toda a criação por sua virtude divina. Mas também nos incumbe de fazer que seu reinado se estenda por toda a terra, não apenas nos corações dos homens, mas nas estruturas sociais, nas leis das nações, na cultura, na economia... É dever de todo cristão impregnar o mundo com o bom odor de Cristo, espalhar pelo orbe o seu reino “de verdade e vida, santidade e graça, justiça, amor e paz” (cf. Prefácio da Missa de Cristo Rei). É preciso lutar contra as forças do mal que querem apagar da sociedade os sinais de Cristo, retirando os crucifixos dos lugares públicos, fazendo passar leis iníquas nos parlamentos, sendo conivente com as ideologias pagãs e destrutivas. Ergamo-nos, cristãos: vós formais um reino de sacerdotes (Ap 5,10) e, se Cristo é o Rei dos reis, Senhor dos senhores, é porque ele reina e domina sobre nós: nós somos reis, nós somos senhores.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Inspiração e inveja

É realmente inspirador depararmo-nos com pessoas competentes em seus ofícios, em suas profissões. Um bom médico é capaz de salva a vida de uma pessoa graças à dedicação que teve em aprender a medicina, à sua experiência diária na profissão, ao seu empenho neste caso específico. Falo do médico apenas como um exemplo, mas isso serve para todos os ofícios humanos. Não é reconfortante saber que recebemos o serviço de alguém competente? E, ao mesmo tempo, como dito, é inspirador. Mas na nossa singular nação este sentimento não parece ser tão óbvio quanto parece. Um médico medíocre tanto pode inspirar-se num competente quanto pode ficar com inveja e desprezá-lo, procurando subterfúgios para diminuir o outro e elevar-se a si próprio. E, se há a oportunidade, este sujeito passará o outro para trás. Do mesmo modo nos outros ambientes: na escola, na empresa, na repartição e – infelizmente! – na Igreja.
Não é o que frequentemente encontramos ao nosso redor? Inveja, pusilanimidade, mediocridade e todos os sentimentos mais baixos apoderam-se das pessoas quando veem alguém que deu certo na vida – em nosso caso, na Igreja, de alguém que busca a santidade, a obediência, ou que chegou a ocupar um cargo de liderança ou destaque. É verdade que isto é próprio do ser humano em geral, não é uma macabra particularidade do Brasil, mas é fato que aqui como em nenhum outro lugar, este sentimento é particularmente agudo. E isto extrapola para dentro da vida eclesial, como não nos pode deixar mentir você, caro leitor! Quem sabe você próprio – ou este que te escreve – não sofre da mesma paixão? No entanto, entre nós, não deve ser assim. Entre nós – e isto deveria transbordar para a vida civil em geral – não deve existir essa maligna emulação que consiste em corroer-se de inveja e planejar o mal para o outro, ou mesmo sentir-se triste com o progresso alheio. O desenvolvimento do meu irmão – não importa em que sentido – deveria ser motivo de alegria para mim e – voltamos ao começo deste minúsculo artigo – motivo de encorajamento e inspiração. Assim viveram os santos: tendo sempre modelos de vida reta que os estimulavam a seguir a Cristo e tornando-se eles mesmos modelos para demais irmãos.
Desta forma, peçamos ao Senhor, curador de nossas paixões, que nos livre da inveja e da disputa e nos faça sentir um verdadeira alegria com as vitórias, com o sucesso e com a competência alheias, onde quer que se encontrem.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Os Padres da Igreja - São Justino 3

Vida de São Justino
Do livro Os Padres da Igreja de A. Hamman

A escola de Roma
Roma constitui para o cristianismo uma posição de capital relevância. Todas as seitas empenham-se para aí se implantarem e, tanto quanto possível, nela exercer o seu domínio. Mais importante ainda seria conseguir que a ortodoxia aí se achasse representada, e a verdade cristã fosse defendida contra a heresia e o paganismo.
Justino fez seus adeptos. A história conservou o nome de Taciano, que mais tarde cairá na heresia. Seis dos discípulos de Justino tornar-se-ão seus companheiros de martírio. Seu sucesso deixará na sombra o filósofo cínico Crescêncio que, em vez de combatê-lo lealmente, se contentou em denunciá-lo covardemente. Os ensinamentos do filósofo cristão obrigaram as autoridades e os pensadores a levar em conta o cristianismo. Ele deu ao pensamento cristão direito de cidadania. Seu martírio prova que sua ação e sua influência eram temidas pelas autoridades romanas.
Justino concentrou seus esforços na demonstração da fé cristã, tendo em vista converter judeus e pagãos. Sua controvérsia devia refutar a heresia que começava a proliferar de maneira perigosa. Cinquenta anos mais tarde, Irineu de Lião testemunha sua veneração pelo mestre de Roma que havia sido um precursor.

O escritor
A obra literária de Justino é considerável. Muitos dos seus escritos acham-se hoje perdidos. Dentre eles restam-nos três cuja autenticidade é incontestável: as duas Apologias, o Diálogo com o judeu Trifão, que nos permitem fazer uma ideia da apologética cristã, tal como se desenvolveu por volta da metade do século II.
Justino não é um literato. “Ele escreve rudemente, afirma Duchesne, e numa língua incorreta”. O filósofo só se preocupa com a doutrina. Seu plano é fraco, o ritmo de sua exposição interceptado por digressões e retrocessos para retomar pontos já abordados. O homem comove-nos mais pela retidão de sua alma do que pela arte de sua dialética ou de sua composição. A originalidade de Justino não está na sua qualidade literária, mas na novidade de seu esforço teológico. Por trás deste esforço, descobrimos o testemunho de um homem, de um conversão, de um opção definitiva. Os argumentos que ele apresenta têm uma história: a dele. As tentações contra as quais recomenda que se esteja alertado, ele as conheceu. Para quem sabe descobrir este testemunho, os livros de Justino não envelhecem.

O exegeta
O leitor moderno sente-se um pouco desorientado diante da exegese de Justino. Este percebe, ao longo de toda a Bíblia, a palavra do Verbo de Deus. Para ele a Bíblia inteira anuncia o Cristo. O Verbo que se encarna preexistiu e inspirou os profetas. Ele constitui a unidade dos dois Testamentos. Esta exegese, cara a São Paulo, tornar-se-á tradicional durante o período patrístico. Vamos reencontrá-lo em Irineu e em Agostinho.
Não possuímos mais nenhum dos tratados teológicos compostos por Justino. Somos obrigados a nos contentar com seus livros apologéticos. O Deus do universo só é conhecido por nós através de seu Verbo, que se apresenta a Justino como uma ponte entre o Pai e o mundo. Por ele, Deus criou o mundo, age sobre este e governa-o, ilumina toda alma de boa vontade. Tudo o que os poetas, os filósofos ou os escritores possuem de verdade é um raio de sua presença luminosa. O Verbo guia não somente a história de Israel, mas toda busca sincera de Deus.
Este admirável frescor, esta visão ampla e generosa da história, apesar de certas formulações desajeitadas, encerra a intuição de um gênio, intuição que será retomada desde santo Agostinho até São Boaventura, e, mais perto de nós, por Maurice Blondel. Ele se acha singularmente próxima de nossa problemática moderna.
“Ninguém acreditou em Sócrates enquanto ele não morreu para confirmar o que ensinava. Pelo Cristo, porém, artesãos e até pessoas ignorantes desprezaram o medo da morte”. Estas nobres palavras, que poderíamos atribuir a Pascal, são dirigidas por Justino ao prefeito de Roma.

O mártir
O filósofo cristão dirigira uma primeira apologia ao imperador Marco Aurélio para defender os cristãos caluniados. Não falava ao imperador-filósofo como um acusado, mas como um parceiro. A Apologia não dispusera esse homem sério a conhecer melhor a nova seita, que reunia em uma mesma fraternidade, escravos e patrícios. O imperador continuou a condenar sem conhecer. Este homem, observa o padre Lagrange, que fazia diariamente seu exame de consciência e que se acusava de pecadinhos, nunca se questionou a si próprio para saber se, em relação aos cristãos, não agia como um verdadeiro tirano!
Justino foi denunciado por um filósofo invejoso, que de filósofo só tinha o nome e as vestes aparatosas; as atas do processo foram conservadas. São de uma autenticidade incontestável. O filósofo comparece diante de Rústico, que havia iniciado o jovem Marco Aurélio na moral de Epicteto. Fazem-se as jogadas. Justino sabe-o. não se trata mais de convencer, senão de confessar.
– A que ciência te dedicas?
– Estudei sucessivamente todas as ciências. Acabei por apegar-me à doutrina verdadeira dos cristãos.
As respostas são simples e nobres, nítidas como o metal. Condenaram Justino a ser flagelado e depois a sofrer a pena capital. Assim, glorificou ele a Deus. Sua vida terminava, como as atas que no-la contam, numa doxologia. Era a sua última celebração.
Justino não estava só: achava-se cercado de seus discípulos. As atas citam seis deles. E esta presença constituía a homenagem mais comovente que se possa prestar a um mestre da sabedoria.

sábado, 14 de novembro de 2009

Os Padres da Igreja - São Justino 2

Vida de São Justino

Do livro Os Padres da Igreja de A. Hamman

O homem
Ninguém estava mais bem preparado para este confronto do que Justino. O pensamento dos filósofos, ele o havia procurado, praticado e amado; conhecia-o por dentro, pois que jamais procurou a verdade que não fosse para vivê-la. Havia lutado, viajado, sofrido, em busca do saber. Por esta razão, sem dúvida, percebemos um despojamento por trás de sua descoberta, um testemunho que não engana. Este filósofo do ano 150 está mais perto de nós do que muitos pensadores modernos. “Justino, filho de Prisco, filho de Baqueios, de Flávia Neápolis, na Síria da Palestina”, é com estes termos que Justino faz a sua própria apresentação, à primeira página de sua Apologia. Ele nascera no coração da Galiléia, na cidade de Naplusa, cidade romana e pagã, construída da antiga Siquém, perto do poço de Jacó, onde Jesus anunciara à Samaritana o culto novo. Naplusa era uma cidade moderna, onde floresciam as romãzeiras e os limoeiros, e que ficava encaixada entre as encostas de duas colinas, a meio caminho entre a verdejante Galiléia e a cidade de Jerusalém.
Os pais de Justino eram colonos abastados, de origem latina mais do que grega, o que explica sua nobreza de caráter, seu gosto pela exatidão histórica, as lacunas de sua argumentação. Ele não possui nem a flexibilidade nem a dialética sutil de um grego. Viveu em contato com judeus e samaritanos.

O filósofo
Natureza nobre, apaixonado pelo absoluto, bem jovem ainda sentiu-se inclinado para a filosofia, no sentido que se lhe dava naquela época: não uma especulação por diletantismo, mas busca da sabedoria e da verdade que levam a Deus. A filosofia conduziu-o passo a passo até o limiar da fé. O próprio Justino conta-nos, no Diálogo com Trifão, o longo itinerário de sua busca, sem que nos seja possível fazer a discriminação entre o artifício literário e a autobiografia. Sucessivamente, em Naplusa, freqüentou as aulas de um estoico; depois, de um discípulo de Aristóteles, que logo abandonou, trocando-o por um platônico. Com candura, esperava que a filosofia de Platão lhe permitisse “ver imediatamente a Deus”.
Retirando-se à solidão, Justino passeava pela areia, à beira-mar, para meditar sobre a visão de Deus, sem conseguir apaziguar sua inquietação, quando encontrou um ancião misterioso que dissipou suas ilusões. Este mostrou-lhe que a alma humana não podia atingir a Deus com seus próprios recursos; somente o cristianismo era a filosofia verdadeira, que apresentava conclusão para todas as verdades parciais: “Platão, para dispor a pessoa ao cristianismo”, dirá Pascal.
Instante inesquecível, que assinala uma data na história cristã, em que se encontram a alma platônica e alma cristã. A Igreja colhia Justino e Platão. Tendo ingressado no cristianismo por volta do ano 130, o filósofo cristão, longe de abandonar a filosofia, afirma ter encontrado no cristianismo a única filosofia segura, que satisfaz todos os seus desejos. Ele se apresenta sempre coberto com o manto dos filósofos. Isto para ele é um título de nobreza. Não repudia o pensamento de Platão, mas o introduz na Igreja. Justino gosta de declarar que os filósofos eram cristãos sem o saberem. Justifica esta afirmação começando por um argumento tirado da apologética judaica, que achava que os pensadores deviam o melhor de sua doutrina aos livros de Moisés (Apol. 44,40). O Verbo de Deus ilumina todos os homens, o que explica as parcelas de verdade que se encontram nos filósofos. Os cristãos não têm por que invejá-los, pois possuem o próprio Verbo de Deus.

Testemunha da comunidade cristã
Depois de se ter feito cristão, Justino, sem dúvida alguma, nunca foi padre. Viveu em Roma como um simples membro da comunidade cristã, cujas reuniões dominicais descreve, bem como o batismo e a eucaristia. Desta forma, fornece-nos a primeira descrição da liturgia e dá testemunho da fraternidade que anima e une os membros da comunidade.Primeiro em Éfeso, depois em Roma por volta do ano 150, Justino funda escolas filosóficas cristãs. Na capital do império, morava, como ele conta ao longo do seu interrogatório, “perto das Termas de Timóteo, na casa de um homem chamado Martinho”. Mantém aí uma escola, ensinando a filosofia de Cristo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Os Padres da Igreja - São Justino - 1

Vida de São Justino
Do livro Os Padres da Igreja de A. Hamman

De todos os filósofos cristãos do século II, Justino é o mais célebre e o maior. É também o que toca mais profundamente o íntimo do nosso ser. Este leigo, este intelectual, inicia o diálogo com os judeus e com os pagãos. Sua vida foi um alonga busca da verdade. De sua obra, escrita com rudeza e sem arte, desprende-se um testemunho cujo preço os séculos só fizeram valorizar cada vez mais. O cristianismo para ele não é, antes de tudo, uma doutrina, porém uma pessoa: o Verbo encarnado e crucificado em Jesus.
Neste homem, que viveu há dezoito séculos, percebemos o eco de nossos anseios, de nossas objeções, de nossas certezas. Descobrimos nele uma abertura de alma, uma possibilidade de acolhimento, uma vontade de diálogo, que desarmam e seduzem. Se muitas de suas obras estão hoje perdidas, as que nos restam fornecem-nos o diário íntimo desse cristão, e são suficientes para nos revelar a sua vida, desde o seu nascimento e a sua formação, até o seu martírio.

Vida intelectual no século II
Na época de Justino, os filósofos conquistaram o direito de cidadania em Rima. Vitoriosa em seus exércitos, Roma permanece vassala da cultura e da fermentação religiosa do Oriente. Os mestres do pensamento vêm da Ásia para ensinar em Roma. Os romanos foram tomados de excessiva admiração pela filosofia grega e pelas religiões mistéricas. Roma absorvera os impérios; restava-lhe abrir suas portas às divindades do Panteão.
Cansados de uma religião sem poesia e sem alma, os romanos voltaram-se para os filósofos. A filosofia transformara-se numa escola espiritual de paz e de serenidade, e o filósofo num diretor de consciência, num mestre interior, num guia. O próprio imperador Marco Aurélio reveste-se da moral do estoicismo.
No momento em que Justino se converte, a Igreja se acha em plena fermentação. O homem vindo de fora, o pagão de Roma ou de Éfeso, encontrava certa dificuldade para discernir a Igreja de Cristo, em meio às inúmeras escolas que já proliferavam em torno dela. Os falsos profetas criavam comunidades que se opunham à grande Igreja. Como distinguir o bom grão do joio? O pagão daquela época, como o descrente de hoje, não podia deixar de ficar desnorteado no meio desse formigamento de seitas que reclamavam para si o Cristo.

O ambiente cristão
Dentro da Igreja, não se fazem jogadas. A tradição mal acaba de nascer. Justino pôde ver homens que haviam conhecido Pedro e Paulo. Em Éfeso certamente encontrou cristãos que haviam ouvido João, o Vidente. Cem anos separam-no da vida de Jesus: a mesma distância que separa a nossa geração da do duque de Caxias.
Justino ingressa num cristianismo jovem, de fé ardente e contagiosa, que procura formular sua doutrina. O pensamento de Justino revela sua própria história; ele argumenta tal como raciocina. Seus escritos defendem a fé que ele escolheu.
Duas coisas mudaram: na época de Justino, a Igreja atinge o público culto: filósofos e patrícios pedem o batismo e tomam o lugar dos estivadores e dos escravos. A expansão cristã provoca críticas e gracejos por parte dos escritores pagãos e acusações caluniosas da multidão. A tais oposições os cristãos respondem com a juventude de sua fé: “Nada de literatura. O que vale é a vida”, dizia Minúcio Félix. Justino faz-lhe eco: “Atos e não palavras”.
O Evangelho ia de vento em popa. Para detê-lo, os mundanos espalhavam boatos em que o “zé-povinho”, sempre crédulo, acreditava. Os cristãos eram acusados de adorar um deus com cabeça de asno, de se entregarem à devassidão e de participar dos festins de antropófagos. Filósofos e retóricos lançavam o descrédito sobre esses concorrentes incômodos. Não se deveria de chofre tachar de hostilidade a resistência ao Evangelho. A oposição no século II, como a de todos os períodos da história religiosa, provém de preconceitos, de opções prévias, de ignorância e de mal-entendidos que os escritores cristãos vão esforçar-se por afastar, a fim de estabelecer o diálogo entre a fé o pensamento, entre a Igreja e o mundo. Justino será o homem do diálogo. Uma de suas principais obras intitular-se-á Diálogo com o judeu Trifão.

domingo, 1 de novembro de 2009

Solenidade de Todos os Santos

Bendito seja Deus nos seus anjos e nos seus santos! Essa oração que fazemos junto ao Santíssimo Sacramento resume bem a presente solenidade: celebrar todos os santos e santas de Deus é bendizer a Deus pelo grande dom que Ele dá à Igreja nos seus santos e por meio deles.
Mas o que é santidade? A santidade é, antes de tudo, uma propriedade do próprio Deus: Ele, só Ele, é que o Santo, o separado de todas as coisas porque sua natureza de tal modo transcende tudo que nada o pode abarcar, nada o pode prender. Mas, ao mesmo tempo que é o Altíssimo, o Inalcançável, Ele, em sua bondade, se inclina para o homem e o chama à altíssima vocação da santidade, do apartar-se de tudo o que não é Deus para estar junto d’Ele.
Se é Deus quem chama e dá a santidade, este dom, este chamado, é dirigido a todos os povos, a todas as pessoas. Todos são chamados a serem amigos de Deus, a andarem em sua presença. Objetivamente, no entanto, por causa do pecado original, os homens tiveram sua mente obscurecida e passaram a viver afastados de Deus. Mesmo assim, Deus, através do Seu Filho, que viveu e morreu por nós, temos de volta a vida que Deus nos tinha dado no início. E a nossa entrada nesta vida nova, vida de santidade, se dá quando entramos na Santa Igreja, Casa Deus entre os homens, Templo Santo, Corpo de Cristo, Sinal da sua salvação entre todos os povos. Aqueles que pela fé e pelo batismo recebem o Espírito Santo e se nutrem dos sacramentos são o povo santo, a nação sacerdotal que o Senhor escolheu para proclamar as suas obras maravilhosas. Você, cristão, pelo santo batismo, possui o Espírito Santo, que o torna santo! Mesmo na sua fraqueza, mesmo que cometa pecados, mesmo assim Deus o ama e o chama a viver uma vida de santidade, continuamente se purificando das obras más do pecado e se tornando semelhante ao Cristo Nosso Deus em sua vida terrena. É Cristo, o Santo de Deus, o Bem-aventurado, o modelo primeiro e insubstituível para o cristão; mas para que não penses que este ideal é alto demais, Deus deu-nos uma inumerável multidão de homens e mulheres que foram, na vida e na morte, capazes de imitar o Senhor pela força do Espírito Santo que estava neles. É a eles que nos dirigimos hoje, suplicando suas preces junto a Deus para que nós possamos também nós imitá-los e caminhar na amizade de Deus neste mundo. Que o Senhor nos conceda a graça grandiosa de sermos, como os santos que hoje celebramos, testemunhas dignas de sua Palavra e que sejamos contados entre o número daqueles que têm seus nomes inscritos nos céus e que no fim desta vida hão de participar da bem-aventurança eterna.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Os Padres da Igreja - Santo Inácio de Antioquia - 3

Vida de Santo Inácio de Antioquia

Do livro Os Padres da Igreja, de A. Hamman

A Igreja no século II

As cartas de Inácio estão cheias de ensinamentos sobre a Igreja no início do século II. Momento crucial. Se, de um lado, os apóstolos morreram uns após outros, de outro lado a sombra do seu prestígio continua a projetar-se sobre as regiões evangelizadas.
A Igreja ampliou-se e continua a prosperar no meio das perseguições. Organiza-se, estrutura-se, hierarquiza-se. O episcopado é solidamente fundado nas comunidades da Ásia Menor, como o atestam as cartas de Inácio.
Mutação e expansão chocam-se com as dificuldades que elas mesmas provocam. A multidão respingada de novos crentes contém, como o cesto do Evangelho, uma mistura. Pesam ameaças sobre as comunidades. A autoridade é discutida, e talvez aceita com queixas. Inácio volta incessantemente a insistir sobre a unidade do clero e dos fiéis em torno do bispo, os quais devem harmonizar-se “como as cordas da lira”. A própria fé é ameaçada pela heresia. A Ásia Menor parece particularmente infestada pelo que Inácio chama de “peste”. O bispo coloca de sobreaviso as comunidades de Éfeso, de Magnésia e de Trales. Estaria ele pressentindo o misticismo gnóstico que iria dilacerar o Oriente cristão e que seria mais destruidor do que as forças do Império? A perseguição recrudesce, a heresia destroi a unidade.
Inácio é uma das primeiras e raras testemunhas da Igreja no momento em que ela se abre ao mundo grego-romano. Se suas cartas são mais cheias de vida do que de literatura, é porque nos revelam maravilhosamente a fé que enfuna as velas do barco em alto mar.
A comunidade acha-se agrupada em torno do bispo, e, mais profundamente ainda, em torno da Eucaristia, palavra que Inácio faz adotar para exprimir dali em diante a reunião litúrgica na ação de graças. Sua carta aos magnesianos ensina-nos a instituição do domingo para comemorar a vitória pascal. Pela primeira vez, a carta aos esmírnios tenta integrar o casamento na vida da comunidade.

Temas mais importantes

Há dois temas que voltam com prioridade nas cartas: a fé em Jesus Cristo e a caridade. Ele gosta de retomar os ensinamentos que dizem respeito ao Cristo: “Há um só médico, a um tempo carne e espírito, gerado e não gerado, Deus feito carne, verdadeira vida no seio da morte, nascido de Maria e de Deus, primeiramente passível de sofrer e agora impassível: Jesus Cristo, nosso Senhor” (Ef 2,2).
Inácio não tem outra paixão senão a de imitar o Cristo. É para segui-lo perfeitamente que aspira ao martírio e a dar a sua vida como ele o fez: perder tudo para encontrar Cristo: “Que nada de visível ou de invisível me impeça de alcançar Cristo. Que todos os tormentos do demônio se desencadeiem sobre mim, contanto que eu alcance o Cristo... Para mim, é mais glorioso morrer pelo Cristo do que reinar até os limites extremos da terra. É a ele que busco, ele, este Jesus que morreu por nós. É ele que eu quero, ele que ressuscitou por nossa causa. Neste momento é que começarei a viver” (Aos Romanos 5,3; 6,1-2). A todas as comunidades ele recomenda a caridade. Esta palavra volta como um leimotiv, resumindo para ele a fé que arde em seu coração. A fé é o princípio, a caridade, a perfeição. “A união das duas é o próprio Deus; toda as outras virtudes formam o seu cortejo, para conduzir o homem à perfeição” (Aos Efésios, 14).
“É muito bom ensinar, com a condição de que se pratique o que se ensina”, escreve ainda Inácio. Este princípio orientou a sua vida, antes que o exprimisse em suas cartas. Assim é o primeiro bispo da Ásia, cujas cartas perpetuam o seu eco. À primeira vista, pode parecer que ele pertença a uma outra época. Basta, porém, revolver as cinzas: suas páginas conservam o fogo que o consumia.

Os Padres da Igreja - Santo Inácio de Antioquia - 2

Vida de Santo Inácio de Antioquia

Do livro Os Padres da Igreja, de A. Hamman

O homem

Só conhecemos o homem através de suas sete cartas, as únicas que nos permitem penetrar em seu jardim fechado. Aqui, “o estilo é o homem”. Tal homem, tal coração! Em frases curtas, densas, tão cheias que parecem que vão explodir, de estilo sincopado, sofrido, corre um rio de fogo. Nenhuma ênfase, nenhuma literatura, mas um homem excepcional, ardente, apaixonado, heroico, embora modesto, benevolente mas dotado de lucidez; um dom inato de simpatia, como Paulo, com uma doutrina segura, clara, mais dogmática do que moral, na qual se exprimem a influência joanina, a experiência mística e a santidade.

A importância dessas cartas não passou despercebida aos historiadores. Sua autenticidade foi apaixonadamente discutida durante dois séculos, por motivos em que as teses por vezes induziam às conclusões. Os críticos mais severos, como Harnack, afirmam sua originalidade e sua autenticidade. “A questão, escreve o padre Camelot, está agora definitivamente encerrada”.

Inácio possui senso humano e respeito ao homem. A dificuldade não está em amá-los todos, mas em amar cada um deles; e, em primeiro lugar, o pequeno, o fraco, o escravo, aquele que nos magoa ou que nos faz sofrer, como o escreve e o recomenda a Policarpo. Ama suficientemente os homens para corrigi-los sem feri-los. A palavra “médico”, que aplica com acentuada preferência a Cristo, cabe perfeitamente a ele. Inácio serve à verdade da fé a ponto de pregá-la mesmo quando ela lhe é incômoda e quando ameaça atrair sobre ele as incompreensões e até a hostilidade. A afeição que o cerca é antes de mais nada uma estima; esta “bigorna sob o martelo” não é homem de concessões.

Inácio conquistou o domínio de si a custa de paciência, palavra que lhe é querida e que o caracteriza. Este temperamento impulsivo, impetuoso, tornou-se brando, vencendo a irritação que reprovava em si. Mostra como se conhece bem quando escreve: “Imponho-me uma determinada medida, para não me perder por causa da minha vaidade”. À vaidade ele opõe a humildade, às blasfêmias a exortação, aos erros a firmeza da fé, à arrogância uma educação sem falhas.

O amadurecimento muda sua lucidez em vigilância, sua força em persuasão, sua caridade em delicadeza. “Não vos dou ordens”. Ele prefere convencer. Não precipita nada, acha melhor esperar. Em Esmirna, nada lhe escapa. Aguarda o momento de escrever sua carta de agradecimento, para transformar sua crítica em humildes sugestões de alguém que já partiu definitivamente, cujo olhar não provocará mais humilhações.

A responsabilidade que tem sobre os outros não lhe fez perder a lucidez a respeito de si próprio. Ele se conhece bem. Sabe que é sensível aos elogios, propenso à irritação. Com humildade, na estrada triunfal, cercado de honras, confessa: “Estou correndo perigo”. As demonstrações de consideração não lhe sobem à cabeça, nem o impedem de ver claro.

Se as confidências escapam ao longo de diversas cartas, a dirigida aos romanos é uma confissão. É o bispo que escreve aos esmirnenses, aos efésios, que agradece e exorta; é o homem, arrebatado por Deus, que fala aos romanos. Este caráter singular da carta não escapou aos historiadores. Renan, que rejeitava as outras, achava esta “tão cheia de uma energia estranha, de um espécie de fogo sombrio, e impregnada de um caráter particular de originalidade”.

A língua aí é mal cuidada. O ardor e a paixão provocam a expressão e tornam-na incandescente. Que importam as palavras? Só uma coisa importa: alcançar a Deus. “Como é glorioso ser um sol poente, longe do mundo, em direção a Deus. Que eu me possa levantar em sua presença (Rom 2,2). Para Inácio não se trata apenas da expectativa da fé, mas de uma paixão que lhe aperta a garganta e o sufoca, de um amor que o consome, de um ardor que deixa longe todos os que costumamos experimentar em nossos corações de carne. Fora Deus, tudo agora parece sem valor.

“Em mim já não existe atração pela matéria; só há uma água viva que murmura dentro de mim dizendo-me: Vem para o Pai. Não encontro mais prazer no alimento corruptível nem nas alegrias desta vida; o que desejo é o pão de Deus, este pão que é a carne de Jesus Cristo, o filho de Davi; e, como bebida, quero o seu sangue, que é o amor incorruptível”. Os historiadores podem tecer comentários sobre o sentido destas expressões. Quem lê a carta aos romanos aí encontra um dos testemunhos mais comoventes da fé, o grito do coração, que não pode enganar nem ser enganado, que comove porque diz a verdade.